Ausência e presença arquitetônica na cidade contemporânea – Tarcísio Bahia

Ausência e presença arquitetônica na cidade contemporânea
Tarcísio Bahia
Tarcísio Bahia é arquiteto formado pela FAU-UFRJ, professor da Universidade Federal do Espírito Santo, doutor pela Universidade Politécnica da Catalunha/Espanha, editor da revista Arquitetura & Aço, além de ter coordenado o I e II Simpósio Nacional de Arquitetura e Urbanismo para o Turismo, eventos promovidos pelo IAB-ES na cidade de Vitória/ES

“Trata-se de criar espaços polimorfos, indiferentes, moduláveis. (…) Despojados de qualquer caráter individual e permanente, e com esta condição, estão preparados para acolher a pulsação indefinida do transitório” (1)

No seu livro sobre a “arquitetura na era da globalização”, Hans Ibelings (2) compila vários edifícios que rechearam páginas das revistas de arquitetura ao redor do mundo nestes últimos anos. Segundo o autor, uma das características destas obras espalhadas por cidades em distintas latitudes é a neutralidade de quem não quer competir com diferentes contextos onde se implantam cada uma destas construções. Traduzido segundo a reflexão de superfícies polidas e brilhantes que definem o contorno das formas puras e prismáticas destes edifícios, tal neutralidade denota, porém, não apenas a conveniência de uma arquitetura globalizada mas também uma convicta renúncia a uma destacada presença urbana.

Se a globalização é a justificativa, a conseqüência é a desterritorialização de uma arquitetura sem lugar. O genius loci (espírito do lugar) que inspirava a arquitetura greco-romana (3) e que foi reivindicado por Norberg-Schulz (4) algumas décadas atrás, perde assim todo sentido. Não se trata tanto da recusa por construir lugares significativos, mas de ignorar o caráter do espaço pré-existente. Torna-se assim algo duro de admitir, mas o fato é que alguns dos mais notáveis edifícios da atualidade têm como critério a negação do próprio lugar onde se assentam, refletindo uma verdadeira indisposição em dialogar com o ambiente local. Entretanto, o superlativo qualificativo que se aplica a tais obras, leva em consideração aspectos morfológicos e tipológicos, estabelecidos no século XIX e consolidados durante o modernismo, mas em detrimento de análises que lidam com as mutações da cidade contemporânea.

Um dos argumentos dos arquitetos que assumem tal postura, isto é, a introspecção perante o espaço urbano, é a desqualificação e a desordem principalmente das periferias das cidades atuais. Contrapondo-se a anterior hegemonia de uma ação arquitetônica catalisadora, ambição parcialmente fracassada, esta arquitetura “ausente” aceita sem esforço as limitações do seu poder de influência sobre o meio social e urbano. Se a cidade é cada vez mais complexa e heterogênea, os arquitetos acabam admitindo sua impotência em lidar com todos os níveis da vida social urbana. Recuando aos limites de satisfação dos privilegiados usuários diretos dos edifícios, esta arquitetura apresenta-se ao exterior como um objeto de contemplação e se fecha para um mundo interno totalmente protegido e condicionado.

Contudo, esta exclusão proporcionada pela arquitetura não se dá apenas naqueles locais desprezados pelo poder político e econômico, na verdade é uma veemente opção contra um espaço público sob o qual já não se tem total controle.

A torre sem fim que Jean Nouvel pretendia construir em La Défense, local simbólico do capital francês, exemplifica tal premissa: um cilindro de base circular, um objeto sem contornos definidos que partia da terra num irredutível e imponente negro, depois ia acinzentando-se a medida que subia aos céus, até se tornar transparente, desaparecendo nas nuvens. O primor técnico e a sensível argumentação conceitual do projeto não são, porém, obstáculos que impeçam a percepção que se trata de uma atitude contrária a afirmação do lugar.

Voltando à globalização, e se ela, com a grande velocidade de transmissão de dados e deslocamentos físicos, (ainda) é inócua quanto à diversificação da cultura mundial, a conseqüência é a impossibilidade de se reduzir toda a produção arquitetônica contemporânea a alguns poucos conceitos de análise. Contudo, e a despeito da enorme pluralidade de tendências arquitetônicas, é possível identificarmos questões coincidentes, que definem conjuntos senão hegemônicos ou dominantes, pelo menos majoritários. Sinal de um tempo no qual a tecnologia da informação e a do entretenimento tornam-se dominantes em qualquer ponto da esfera terrestre; com a exceção daqueles que são excluídos de tudo, inclusive da arquitetura e do direito à vida urbana.

A busca por novos instrumentos de análise do projeto arquitetônico em função da atual complexidade da cidade contemporânea, é portanto tarefa que a crítica arquitetônica não pode dispensar. Se a cidade não é mais um organismo coeso, e se a arquitetura já não obedece a uma doutrina únivoca, é certo que sem muito esforço encontramos semelhanças mais que aparentes entre alguns centros e periferias de cidades separadas entre si por um oceano. Ou quando um exitoso modelo arquitetônico projetado para uma determinada realidade acaba muitas vezes se repetindo num contexto radicalmente distinto, seja pela demanda dos empreendedores, seja pela conveniência do arquiteto!

Ver ou ser visto, interação ou introspecção

Na dissonante variedade tipológica fruto da intensa produtividade atual, uma das leituras que se pode estabelecer na relação da arquitetura com a cidade contemporânea é, portanto, a vontade de se fazer presente ou ausente ao entorno. Trata-se de uma polaridade que estabelece um conceito de análise segundo contraposições, tal como as relações cheio/vazio, opacidade/transparência, simetria/assimetria, figura/fundo, plano/massa, razão/emoção, abstração/empatia, mas que agora não se preocupa tanto com a forma urbana mas sim com a dinâmica do meio social que se desenvolve no espaço urbano, e da qual a arquitetura tem papel substancial.

Trata-se de uma dicotomia que decorre de uma nova atitude perante a cidade, pois historicamente a arquitetura ocidental sempre buscou posicionar-se positivamente em relação ao espaço vazio a ser ocupado.

Neste sentido, a renovação imposta pela cidade moderna aberta contra a cidade contínua pré-moderna (5) não representou nenhuma transformação do positivismo que a implantação do espaço edificado pressupunha. Mesmo em Mies Van der Rohe, onde a transparência horizontal era uma ode ao espaço infinito, não havia a proposição de uma arquitetura ausente. Como demonstrado por Siegfried Giedion, a transparência proporcionada pelas superfícies envidraçadas era razão de ser de um discurso em favor da liberdade espacial a partir da incorporação do tempo ao espaço arquitetônico. Indo mais longe, os arquitetos modernos defendiam um continuum urbano que, ao desprezar qualquer obstáculo físico, teve no pilotis um dos seus ícones programáticos.

Hoje não é mais a transparência que se busca nas superfícies de vidro, pois estas agora buscam a reflexão, não permitindo mais a interação exterior-interior, um dos princípios fundamentais do movimento moderno (6). Além disso, o pilotis não só já foi descartado, como os edifícios são cada vez mais lugares de acesso restrito e/ou controlados por câmeras, monitores, alarmes e seguranças uniformizados e cujas fronteiras demarcam os limites do caos público e a ordem privada.

De qualquer modo, aquilo que é uma das grandes invenções da arquitetura moderna, o espaço isotrópico que se desenvolve infinitamente segundo uma geometria modular, alcançando uma ampla translucidez e transparência, acabou contribuindo para a renúncia de significados claramente identificáveis pelo público em geral. Conceitualmente, não existe diferenças radicais entre a Galeria Nacional de Mies em Berlim e qualquer hipermercado instalado em convencionais galpões, onde a comunicação visual assume o protagonismo midiático.

O lugar ausente

É claro que ao preferir se emudecer, a arquitetura não deixa de fazer parte da cidade.  Segue a lógica que a existência da primeira é fundamental à segunda (7), a despeito da cidade ser mais do que arquiteturas reunidas. E do mesmo jeito que existe uma arquitetura que não se apresenta à cidade, nesta também existem espaços ausentes, totalmente desprovidos de caráter urbano. Interstícios urbanos, terrain vague, espaço residual (8), não faltam categorias classificatórias para tais ambientes cada vez mais “presentes” na cidade contemporânea.

No Brasil, há quem afirme que o privado é mais eficiente que o público, algo que vale tanto para as instituições quanto para o espaço. No caso do espaço, porém, se em determinadas partes do mundo as sociedades tratam o lugar público como pertencente à todos, aqui nos damos conta que ele não é de ninguém! Se este desleixo por aquilo que nos pertence justifica a existência de milhares de ambientes inóspitos em nossas cidades, isto não significa que do lado de lá, no mundo “rico e civilizado”, não existam manchas encardidas no tecido urbano deles.

Assim, um desvio desta idéia de ausência são os cada vez mais freqüentes grandes espaços residuais das grandes urbes. Na dicotomia presença/ausência, os símbolos da arquitetura de massas são o shopping center e o hipermercado que, disseminando-se ubiqüamente, agora chegam às médias cidades brasileiras. Enquanto que estas megas-estruturas arquitetônicas querem se fazer presentes através de letreiros luminosos e toscos adornos, seus circunscritos estacionamentos de asfalto oferecem inertes vazios “ausentes” de significado. E o que dizer a um consumidor ávido na disputa de um local para estacionar seu automóvel naqueles dias em que parece que todo mundo pensou em ir a um só lugar?

Mas a ausência não é apenas uma premissa da produção comercial, pois como já disse Ibelings, a neutralidade e a reflexão da caixa arquitetônica são aspectos recorrentes na alta arquitetura. É o que faz Dominique Perrault na Biblioteca Nacional da França, deixando à cidade planos intersticiais, tal qual muros de proteção ou isolamento, e oferecendo aos privilegiados usuários um claustro atemporal, antítese de uma urbanidade que não se permite entrar. Alguns dirão que uma biblioteca deve ter tal qualidade, contudo, não seria contraditório negá-la justamente a cidade, local que produz o conhecimento que se quer preservar e divulgar?

Outro caso ilustre é o de Herzog & De Meuron, arquitetos que têm tido recentemente destaque por parte da crítica especializada de todo o mundo. Entre propostas mais radicais – cabine ferroviária na Basiléa – e outras mais aceitas publicamente, o fato que as obras desta dupla de profissionais é bastante coerente com a percepção do contexto que lhes servem como ambiente refratário e insípido.

Há também certas obras suficientemente emocionantes na sua atitude aparentemente esnobe perante à cidade. É o caso do Kursaal de Rafael Moneo na cidade basca de San Sebastián: dois cubos de gelo, quer dizer, de vidro, tensionamente posicionados sobre uma praia banhada pelo frio mar do norte europeu. De qualquer modo, mesmo para um espanhol leigo, aquilo é uma arquitetura indiferente ao caráter do lugar construído, ou seja, a cidade.

Mas a arquitetura brasileira também tem seus exemplos, e que no meio local são suficientemente ilustres. Para citar duas obras, temos o Museu Brasileiro de Escultura de Paulo Mendes da Rocha em São Paulo e a Softhouse da Xerox em Vitória de Alexandre Feu Rosa. Se no MuBE a inserção de caráter topográfico produz um espaço quase vazio e introspectivo como suporte às esculturas que pretende expor, no outro caso trata-se de uma total indiferença à cidade, a despeito de todo exímio que se pode observar no projeto e na construção desta sede de uma empresa privada.

Assim, o que fica evidente neste modo de tratar a relação do edifício com a cidade é o caráter abstrato destas obras que, valorizando o espaço em detrimento da forma, acabam no gosto da crítica em função de uma sensibilidade pouco acessível ao gosto popular.

Holofotes que fazem brilhar

Enquanto uma arquitetura mais regrada é em parte uma resposta crítica à cidade contemporânea, não faltam aqueles que nas mesmas condições fazem o oposto e partem para o ataque. Estes, aliás, são bastantes mais aceitos pela opinião pública em geral e idolatrados pelos jovens estudantes de arquitetura que sonham em um dia se tornarem famosos. Frank Gehry, Santiago Calatrava ou Coop Himmelb(l)au são nomes que fazem parte desta categoria. Baseando-se em conceitos intelectuais diversos, justificam suas obras através do impacto proporcionado pelos novos ícones urbanos que mudam a imagem das cidades. Tal qual um cancer, estas obras querem contagiar o entorno, transformando-o.

E é tal disparidade estilística que dificulta a aceitação de um caminho excludente; mais do que globalizada a sociedade atual é complexa e heterogênea. Os arquitetos, tal como os músicos e cineastas, sabem que qualquer que seja seu perfil ou tendência, encontrarão alguém que será seduzido pelas imagens oferecidas por cada novo projeto. Em paralelo à austeridade de determinadas arquiteturas, encontram-se formas dinâmicas e explosivas, cenários de hecatombes que se destacam ante a passavidade de uma urbanidade monótona e anônima. É a forma que seduz mais do que o conteúdo, a aparência contra a essência, a beleza contra a utilidade, Juliana Paes contra Zilda Arns.

Aqui, os melhores exemplos são o de Fernando Peixoto com seus totens em Salvador, mas principalmente o de Ruy Othake através do hotel Unique, para não falar de outros edifícios seus. Mesmo que admitamos com boa vontade que existe uma genealogia daquela obra com a célebre arquitetura moderna brasileira – formas puras articuladas com elementos destoantes, paredes sinuosas, serenidade abrangente desvirtuada por pequenas tensões – teremos que admitir que esta não é a primeira leitura que se faz de um edifício que tem como primeira missão mostrar que ele é diferente de tudo à sua volta. Se bem que era esta a imagem imposta pela arquitetura de Oscar Niemeyer e companhia quando atuavam em territórios ainda não desbravados, seja numa floresta, seja na cidade (9).

E ninguém melhor do que Niemeyer trabalhou com o formalismo, projetando pombas, flores ou qualquer outra figura como se fossem edifícios. E para os não iniciados, a beleza resulta justamente no fato de um edifício lembrar algo reconhecível.

“Para não dizer que não falei de flores” (10)

Arquitetos-urbanistas, assim nos formamos, assim estudamos; contudo a realidade é algo distinta. Na prática existem aqueles que se dedicam à cidade, os urbanistas, e os que se dedicam ao edifício, os arquitetos. Os primeiros aceitam o fato que a cidade contemporânea é fragmentada e trabalham sobre frações do território urbanizado, enquanto os segundos… bem, sobre estes já falamos acima.

Não existe nenhuma ideologia que se oponha ao capital, desapareceram as doutrinas culturais, só restam fragmentos num mundo cujo ícone é a informação em alta velocidade e cujos dados são digitais e em pixels.

E a paisagem urbana passa a ser resultado desta renúncia em tentar impor qualquer unidade. Neste cenário aonde se impera ampla desordem e na qual cada objeto arquitetônico revela-se egocêntrico ou desprendido, renuncia-se a preponderância sobre a conformação da paisagem urbana. O resultado disso é que a arquitetura abriu espaço para que os paisagistas (e ambientalistas) reivindicassem o controle do espaço sobre o qual o homem atua.

De qualquer modo, é curioso notar que parte dos estudos desta disciplina paisagística se dá sobre análises teóricas desenvolvidas previamente por arquitetos (11). Não se trata de nenhum tipo de denúncia, mas do reconhecimento do deslocamento disciplinar que ocorre neste tema. Se antes os arquitetos buscavam um projeto global, incluindo aí a paisagem, agora, atuando sobre os fragmentos, alguns desenhando as partes públicas da cidade – ruas, praças, parques – e outros os componentes privados – os edifícios – num processo de extrema especialização técnica mas que elimina a interação urbana, acabam cedendo lugar para aqueles que ainda crêem ser possível um nível de planejamento global ordenador do espaço em grande escala (12).

De fato, os esquemas de análise da forma arquitetônica no âmbito da realidade urbana já não são suficientes para destrinchar a complexidade da cidade contemporânea. Metrópoles estratificadas com vários centros desagregados que se interconectam sem nenhuma ordem preestabelecida, as cidades do terceiro milênio – em especial as da América Latina –demandam conexões de outro padrão com a arquitetura. Certamente, os três caminhos que os arquitetos podem optar ao idealizarem seus edifícios, são possíveis e até mesmo válidos. Seja o do diálogo franco e interativo – a presença –, seja a introspecção que assume a impossibilidade de se comunicar unanimemente – a ausência –, ou ainda que seja o da ambigüidade, que permite ambas impressões a partir da diversidade cultural que flui através dos canais da cidade, a inflexão reivindicada é, nada mais nada menos, que a consciência projetiva a ser assumida pela arquitetura.

Espaço sem Estado ou Estado ausente?

Cabe dizer que é inevitável aceitarmos que a fragmentação e pluralidade (13) são fenômenos atuais, e provavelmente irreversíveis. A proliferação de espaços inertes e amorfos, ou senão híbridos e desqualificados vai contra à cidade fragmentada, porém coesa, tal como conclamado por Colin Rowe. Assim sendo, ainda resta-nos alguma esperança, pois mesmo considerando esta nossa realidade, o que não podemos é renunciar tanto à cidade quanto à missão arquitetônica a ser desempenhada pelo homem.

Ao cidadão brasileiro, por exemplo, parece que não foi a arquitetura que renunciou ao espaço público, foi o Estado que reconhece a derrota perante um poder paralelo. A representatividade arquitetônica, certamente tem parcela de culpa nesta impressão. E se no mundo de lá não se tem tal imagem do Estado, não deixa de ser correto que as cidades são cada vez mais guetos de várias tribos que se justapõem. Esperemos que pelo menos, pacificamente.

fonte http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp248.asp

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