André Mauraux

Homem de grande participação na vida do séc. XX, André Malraux é freqüentemente definido com muitos adjetivos, tais como combatente, visionário, aventureiro e político. Romancista, ensaísta, amante das artes, cineasta, promotor de cultura, Ministro de Estado – qual seria a melhor forma de sintetizá-lo? Talvez a opção mais adequada fosse exatamente a de não buscar nele características únicas e definidas que nos permitissem facilmente compreendê-lo. André Malraux não se deixa apreender com facilidade: provoca elogios e críticas, estimula discussões e polêmicas. Sua vida aproxima, por vezes, paradoxos: a participação ativa em defesa da dignidade dos homens, ao lado de questões políticas que levantaram celeumas com relação à Guerra da Argélia.

Há entretanto que se conhecer esse homem, que produziu uma obra significativa e provocadora, atenta às questões sociais de seu tempo, ao papel da literatura e do escritor, à evolução da arte e à sua função social. Se os primeiros escritos, por vezes simbólicos e enigmáticos, já abordam questões filosóficas, como as diferenças culturais entre o Oriente e Ocidente, os romances – Os conquistadores (1928), A Estrada real (1930), A Condição humana (1933), O Tempo do desprezo (1935) e A Esperança (1937) – confirmam seu desejo de interferir nos acontecimentos políticos e sociais, e sua reflexão sobre o sentido e o valor da arte. Sem dúvida a frase do prefácio do Tempo do desprezo que diz : «pode-se querer que o sentido da palavra arte seja tentar dar aos homens consciência da grandeza que ignoram em si mesmos» reúne os dois aspectos mais marcantes da obra: ação política e reflexão estética. Aspectos que jamais se separam para Malraux. Ao contrário, cada vez mais se confundem com o advento da maturidade e a somação da experiência.

Homem da História e da ficção, da vivência e da invenção, como vemos nas diversas etapas de sua obra: dos chamados «écrits farfelus» aos romances revolucionários, e dos ensaios estéticos às suas Antimemórias. Ação e criação. Realidade e imaginação. Não como uma evasão romântica, como uma fuga ou uma pseudo-solução. Pelo contrário, fazendo com que uma explique a outra, tentando buscar em uma a presença da outra, reunindo o combatente e o visionário. Por que escreve Antimemórias ao invés de Memórias? «Porque as Antimemórias respondem a uma questão que as memórias não colocam, e não respondem àquelas que elas colocam», diz ele. Com efeito, Malraux não se volta para a sua vida, mas para a sua obra, não busca fronteiras, não quer separar os fatos vividos dos fatos inventados. Conversa com Clappique, o personagem bufão da Condição Humana, que lhe permite refletir sobre problemas com os quais os homens são incessantemente confrontados, mas também sobre os não-limites entre arte e realidade, entre seus personagens e ele mesmo. Esquadrilha

Durante a Guerra Civil Espanhola

1937

O que Malraux faz, de fato, é desequilibrar as certezas que o mundo parece querer impor, para fazer concorrência à realidade: «o escritor, como o pintor, não é o transcritor do real, é o seu rival», diz em O homem precário e a literatura (1977), obra publicada postumamente e ainda pouco conhecida entre nós. O que ele faz é buscar não só a experiência do real, como também a da imaginação, para aprisionar a realidade e torná-la sua, o que lhe permitirá dizer um dia: «o mundo pôs-se a se parecer com meus livros».

Homem do destino e do antidestino. Do destino trágico dos homens, que o obsedava: a morte, o sofrimento, a angústia; do antidestino da arte, que o fascinava. Não porque o enganasse. Ao contrário, porque lhe ensinava os caminhos do mundo, o fazia ver suas possibilidades de mudança: a não rigidez das coisas, as várias linguagens e saberes de cada cultura, que a arte espelha e multiplica, e interpela.

O Museu Imaginário e a Biblioteca – conceitos que caracterizam sua reflexão – são lugares dessa convivência: da experiência com a criação, da realidade com a ficção, do saber das grandes obras com os saberes singulares que delas nascem. Numa espécie de aprendizado e ensinamento, círculo imperioso e necessário da vida: aprender para ensinar, ensinar para aprender, viver para morrer, morrer para viver, num processo de contínua metamorfose. Nesse sentido, a arte é antidestino. Não fim, porém possibilidades. Não resposta. Perguntas. Só perguntas.

fonte: http://site.malraux.sites.uol.com.br/

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